Iracema - José de Alencar
- 18 de out. de 2017
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IX
O sono da manhã pousava nos olhos do Pajé como névoas de bonança pairam ao romper do dia sobre as profundas cavernas da montanha. ' Martim parou indeciso; mas o rumor de seu passo penetrou no ouvido do ancião, e abalou seu corpo decrépito. — Araquém dorme! murmurou o guerreiro devolvendo o passo. O velho ficou imóvel: — O Pajé dorme porque já Tupã voltou o rosto para a terra e a luz correu os maus espíritos da treva. Mas o sono é leve nos olhos de Araquém, como o fumo do sapé no cocuruto da serra. Se o estrangeiro veio para o Pajé, fale; seu ouvido escuta. — O estrangeiro veio, para te anunciar que parte. — O hóspede é senhor na cabana de Araquém; todos os caminhos estão abertos para ele. Tupã o leve à taba dos seus. Vieram Caubi e Iracema: — Caubi voltou: disse o guerreiro tabajara. Traz a Araquém o melhor de sua caça. — O guerreiro Caubi é um grande caçador de montes e florestas. Os olhos de seu pai gostam de vê-lo. O velho abriu as pálpebras e cerrou-as logo: — Filha de Araquém, escolhe para teu hóspede o presente da volta e prepara o moquém da viagem. Se o estrangeiro precisa de guia, o guerreiro Caubi, senhor do caminho , O acompanhará. O sono voltou aos olhos do Pajé. Enquanto Caubi pendurava no fumeiro as peças de caça, Iracema colheu a sua alva rede de algodão com franjas de penas, e acomodou-a dentro do uru de palha trançada. Martim esperava na porta da cabana. A virgem veio a ele: — Guerreiro, que levas o sono de meus olhos, leva a minha rede também. Quando nela dormites, falem em tua alma os sonhos de Iracema. — Tua rede, virgem dos tabajaras, será minha companheira no deserto: venha embora o vento frio da noite, ela guardará para o estrangeiro o calor e o perfume do seio de Iracema. Caubi saiu para ir à sua cabana, que ainda não tinha visto depois da volta. Iracema foi preparar o moquém da viagem. Ficaram sós na cabana o Pajé que ressonava, e o mancebo com sua tristeza. O sol, transmontando, já começava a declinar para o ocidente, quando o irmão de Iracema tornou da grande taba. — O dia vai ficar triste , disse Caubi. A sombra caminha para a noite. É tempo de partir. A virgem pousou a mão de leve no punho da rede de Araquém. — Ele vai! murmuraram os lábios trêmulos. O Pajé levantou-se em pé no meio da cabana e acendeu o cachimbo. Ele e o mancebo trocaram a fumaça da despedida. — Bem-ido seja o hóspede, como foi bem-vindo à cabana de Araquém. O velho andou até à porta para soltar ao vento uma espessa baforada de tabaco; quando o fumo se dissipou no ar, ele murmurou: — Jurupari se esconda para deixar passar o hóspede do Pajé. Araquém voltou à rede e dormiu de novo. O mancebo tomou as armas que chegando, suspendera às varas da cabana, e dispôs-se a partir. Adiante seguiu Caubi; a alguma distancia o estrangeiro; logo após, Iracema. Desceram a colina e entraram na mata sombria. O sabiá do sertão, mavioso cantor da tarde, escondido nas moitas espessas da ubaia , soltava os prelúdios da suave endecha. A virgem suspirou: — A tarde é a tristeza do sol. Os dias de Iracema vão ser longas tardes sem manhã, até que venha para ela a grande noite.
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